<< No Smoke I

No final, algo que Jimmy McCann dissera convenceu-o a comparecer: Mudou toda a minha vida. Só Deus sabia o quanto sua vida precisava de algumas mudanças. Além disso, havia a sua curiosidade. Antes de tomar o elevador, ele fumou um cigarro até o filtro. Pior se fosse o último, refletiu ele. Tinha um gosto horrível.
Desta vez, a espera foi curta. Quando a recepcionista o mandou entrar, Donati estava aguardando. Estendeu a mão e sorriu. Para Morrison, o sorriso pareceu quase predatório. Começou a sentir-se um pouco tenso e isto fê-lo desejar um cigarro.
― Venha comigo ― disse Donati.
E foi na frente à pequena sala. Sentou-se novamente à mesa e Morrison ocupou a outra cadeira.
― Fico muito satisfeito porque o senhor veio ― disse Donati. Muitos dos clientes em perspectiva nunca mais aparecem após a primeira entrevista. Descobrem que não querem tanto abandonar o vício quanto imaginavam antes. Será um prazer trabalhar com o senhor.
― Quando começa o tratamento?
Hipnose, pensava Morrison, deve ser hipnose.
― Oh, já começou. Teve início quando apertamos as mãos no corredor. Tem cigarros consigo, Sr. Morrison?
― Sim.
― Pode entregá-los a mim, por favor?
Sacudindo os ombros, Morrison entregou a Donati o maço de cigarros. De qualquer maneira, restavam apenas dois ou três cigarros.
Donati colocou o maço em cima da mesa. Então, sorrindo para os olhos de Morrison, cerrou a mão direita num punho e começou a martelá-la no maço de cigarros, que se achatou e amarrotou todo. Uma ponta de cigarro partido voou longe. Pedaços de fumo se espalharam pela mesa. O som dos murros de Donati soava muito alto na sala fechada.
O sorriso continuava no rosto de Donati, apesar da força dos golpes, e Morrison sentiu um arrepio. Provavelmente, era exatamente esse efeito que eles desejavam inspirar.
Afinal, Donati cessou de esmurrar. Pegou o maço, um destroço retorcido e amassado.
― O senhor nem imagina o prazer que isto me dá ― disse ele, deixando cair o maço na cesta de papéis usados. ― Mesmo depois de três anos nesta profissão, ainda me dá prazer.
― Como tratamento, deixa alguma coisa a desejar ― disse Morrison suavemente. ― Existe uma banca de jornais no vestíbulo deste próprio edifício. Lá. vendem-se todas as marcas de cigarros.
― Como queira.
Donati cruzou as mãos, acrescentando:
― Seu filho, Alvin Dawes Morrison, está na Escola Paterson Para Crianças Excepcionais. Nasceu com danos cranianos no cérebro. QI testado de 46. Não exatamente na categoria de retardados educáveis. Sua esposa…
― Como descobriu isso? ― bradou Morrison, espantado e furioso. Não tem o direito de intrometer-se em minha…
― Sabemos muito a seu respeito ― interpôs Donati tranqüilamente. ― Mas, como eu disse, tudo ficará no mais estrito segredo.
― Vou-me embora daqui ― declarou Morrison com voz tensa.
Levantou-se.
― Fique mais um pouco.
Morrison estudou-o atentamente. Donati não se perturbara. Na verdade, parecia um pouco divertido. O rosto de um homem que vira aquela cena dezenas ― talvez centenas ― de vezes.
― Está bem. Mas acho melhor ser algo muito bom.
― Oh, é ― disse Donati, recostando-se na cadeira. ― Eu lhe disse que, aqui, éramos pragmáticos. Na qualidade de pragmáticos, temos que começar por compreender o quanto é difícil curar o vício do tabagismo. A proporção de recaídas é de oitenta e cinco por cento. A proporção de recaídas dos viciados em heroína é inferior a isso. Um problema extraordinário. Extraordinário.
Morrison olhou para a cesta de papéis. Um dos cigarros, embora torto, ainda parecia fumável. Donati riu, bem-humorado, enfiou a mão na cesta e esmagou o cigarro entre os dedos.
― Ocasionalmente, os legislativos estaduais recebem a sugestão de que seja abolida ração semanal de cigarros para os detentos. Tais propostas são invariavelmente recusadas. Nos poucos casos em que foram aprovadas, ocorreram ferozes motins nas prisões. Motins, Sr. Morrison. Imagine.
― Não me surpreendo ― comentou Morrison.
― Todavia, considere as implicações. Quando colocamos um homem na prisão, tiramos-lhe qualquer vida sexual normal, tiramos-lhe a bebida alcoólica, a política, a liberdade de movimentos. Nenhum motim ― ou muito poucos, em comparação com o número de prisões. Mas quando lhe tiramos o cigarro… bum! bum!
Esmurrou a mesa para dar ênfase às palavras.
― Durante a Primeira Guerra Mundial, quando ninguém na retaguarda alemã conseguia cigarros, a cena de aristocratas alemães catando guimbas nas sarjetas era muito comum.
Durante a Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres americanas passaram a fumar cachimbo quando não conseguiam obter cigarros. Um problema fascinante para o verdadeiro pragmático, Sr. Morrison.
― Podemos passar ao tratamento?
― Num momento. Venha cá, por favor.
Donati levantou-se e andou até a cortina verde que Morrison notara na véspera. Abriu a cortina, deixando à mostra uma janela retangular que dava para uma sala vazia. Não, não exatamente vazia. Havia um coelho no chão, comendo pelotas de ração numa tigela.
― Belo coelhinho ― comentou Morrison.
― Certamente. Observe-o.
Donati apertou um botão ao lado da esquadria da janela. O coelho parou de comer e começou a saltar loucamente pela sala. Dava a impressão de pular mais alto cada vez que suas patas tocavam o chão. O pêlo se eriçava em todas as direções. Os olhos estavam desvairados.
― Pára com isso! Vai eletrocutá-lo!
Donati largou o botão.
― Longe disso. A corrente no chão é ínfima. Observe o coelho, Sr. Morrison!
O coelho estava encolhido a cerca de três metros da tigela de ração. Mexia o nariz. De repente, fugiu para um canto.
― Se o coelho levar choques com bastante freqüência enquanto estiver comendo, estabelece muito depressa uma associação ― disse Donati. ― Comer causa sofrimento; portanto, ele não come. Mais alguns choques e o coelho morrerá de fome em frente à tigela de comida. Chama-se tratamento por aversão.
A luz se fez no cérebro de Morrison.
― Não, obrigado ― disse ele, encaminhando-se para a porta.
― Espere, por favor, Sr. Morrison.
Morrison não se deteve. Pegou a maçaneta… e sentiu-a imóvel sob o movimento giratório de sua mão.
― Destranque isto.
― Sr. Morrison, se ao menos o senhor se sentar…
― Destranque isto ou lançarei a polícia sobre vocês antes que consigam piscar um olho.
― Sente-se
A voz era fria como gelo.
Morrison olhou para Donati, cujos olhos castanhos eram sombrios e assustadores.
Meu Deus, pensou ele, estou trancado aqui dentro com um psicopata!
Umedeceu os lábios. Mais que nunca em sua vida, desejava um cigarro.
― Permita-me explicar o tratamento em maiores detalhes ― disse Donati.
― Você não entende ― replicou Morrison com fingida paciência. Não quero o tratamento. Decidi-me contra ele.
― Não, senhor Morrison. É o senhor que não compreende. Não tem escolha. Quando eu lhe disse que o tratamento já começara, falei literalmente a verdade. Julguei que o senhor já tivesse percebido, a esta altura.
― Você é louco ― disse Morrison, atônito.
― Não. Apenas um pragmático. Deixe-me contar tudo a respeito do tratamento.
― Claro ― replicou Morrison. ― Desde que fique bem entendido que tão logo eu sair daqui comprarei cinco maços de cigarros e os fumarei todos a caminho da delegacia de polícia.
De repente, percebeu que roía a unha do polegar, chupando o dedo, e obrigou-se a parar.
― Como queira. Mas creio que mudará de idéia quando conhecer o panorama geral.
Morrison não replicou. Tornou a sentar-se e cruzou as mãos.
― Durante o primeiro mês do tratamento, nossos agentes manterão o senhor sob constante supervisão ― disse Donati. ― O senhor talvez consiga perceber alguns deles. Não todos. Mas estarão sempre com o senhor. Sempre que eles virem o senhor fumar um cigarro, receberei um telefonema.
― E suponho que me trará para cá e fará o velho truque do coelho ― disse Morrison.
Tentou parecer frio e sarcástico, mas, de repente, sentiu-se horrivelmente amedrontado.
Aquilo era um pesadelo.
― Oh, não ― respondeu Donati. ― Sua esposa receberá o tratamento do coelho, não o senhor.
Morrison fitou-o, emudecido.
Donati sorriu, concluindo:
― O senhor assistirá.
Depois que Donati o deixou sair, Morrison andou durante duas horas, completamente atordoado. Outro dia bonito, mas ele nem percebeu. A monstruosidade do rosto sorridente de Donati apagava tudo o mais.
― Veja ― dissera Donati. ― Um problema pragmático exige soluções pragmáticas. O senhor deve entender que, no fundo, zelamos por seus melhores interesses.
Segundo Donati, a Ex-Fumantes Ltda. era uma espécie de fundação ― uma organização sem finalidades lucrativas, fundada pelo homem cujo retrato estava na parede da sala. O cavalheiro fora extremamente bem sucedido em vários negócios da família ― inclusive máquinas caça-níqueis, estabelecimentos de massagens, jogo do bicho e um ativo (embora clandestino) comércio entre Nova York e a Turquia. Mort "Três Dedos" Minelli fora um fumante inveterado ― na faixa dos três maços por dia. O papel que ele segurava no retrato era um diagnóstico médico: câncer do pulmão. Mort morrera em 1970, após dotar fundos da família à Ex-Fumantes Ltda.
― Tentamos da melhor maneira possível equilibrar a despesa com a receita ― disse Donati. ― Mas estamos mais interessados em ajudar nossos semelhantes. E, naturalmente, existe uma importante questão de isenção de impostos.
O tratamento era horripilantemente simples. Na primeira infração, Cindy seria trazida ao que Donati chamava de "sala do coelho". Na segunda infração, Morrison receberia a mesma dose. Na terceira, ambos seriam trazidos juntos. A quarta infração revelaria graves problemas de cooperação e exigiria medidas mais drásticas: um agente seria enviado à escola de Alvin para surrá-lo.
― Imagine ― disse Donati, sorrindo. ― Imagine como seria horrível para o garoto. Ele não entenderia mesmo que alguém tentasse explicar. Só saberia que alguém o estava machucando porque o papai é mau. Ficaria deveras assustado.
― Bastardo ― disse Morrison, impotente, sentindo-se à beira das lágrimas. ― Seu bastardo sujo, imundo.
― Não me entenda mal ― replicou Donati com um sorriso compreensivo. ― Tenho certeza de que isso não acontecerá. Quarenta por cento de nossos clientes nunca necessitaram de penas disciplinares ― e apenas dez por cento cometeram mais que três transgressões. São números tranqüilizantes, não acha?
Morrison não os achava tranqüilizantes; achava-os aterradores.
― Naturalmente, se o senhor transgredir uma quinta vez…
― Que quer dizer com isso?
Donati sorriu abertamente.
― A sala para o senhor e sua esposa, uma segunda surra em seu filho, além de uma surra na mulher.
Morrison, impelido além dos limites do pensamento racional, atirou-se por cima da mesa contra Donati. Este, movendo-se com rapidez espantosa num homem que aparentemente estava relaxado, empurrou a cadeira para trás e golpeou com ambos os pés por cima da mesa, atingindo a barriga de Morrison. Engasgando-se e tossindo, Morrison recuou cambaleante.
― Sente-se, Sr. Morrison ― disse Donati com ar benigno. ― Vamos conversar sobre o assunto como duas pessoas racionais.
Quando conseguiu recuperar o fôlego, Morrison fez o que o outro ordenara. Os pesadelos têm hora de acabar, não é mesmo?
Donati prosseguiu as explicações, dizendo que a Ex-Fumantes Ltda. funcionava numa escala de punição de dez etapas. As etapas seis, sete e oito consistiam de novas idas à sala do coelho (com gradativo aumento da voltagem) e surras mais severas. A nona etapa seria quebrar os dois braços do filho de Morrison.
― E a última? ― quis saber Morrison, com a boca seca.
Donati sacudiu tristemente a cabeça.
― Então, desistimos, Sr. Morrison. O senhor passará a fazer parte dos dois por cento de irrecuperáveis.
― Desistem, realmente?
― Por assim dizer.
Donati abriu uma das gavetas e colocou sobre a mesa uma pistola calibre 45 munida de silenciador. Então, sorriu para os olhos de Morrison.
― Todavia, mesmo os dois por cento de irrecuperáveis nunca mais voltam a fumar. Isso nós garantimos.
O filme da noite de sexta-feira foi Bullit, um dos prediletos de Cindy, mas após uma hora de Morrison resmungar e remexer-se inquieto, ela perdeu a concentração no filme.
― O que há com você? ― quis saber ela durante o intervalo comercial.
― Nada… tudo ― grunhiu ele. ― Estou deixando de filmar.
Ela riu.
― Desde quando? Desde cinco minutos atrás?
― Desde as três horas desta tarde.
― Então, você realmente não fumou um único cigarro a partir dessa hora?
― Não ― replicou ele, começando a roer a unha do polegar, que já estava roída até o sabugo.
― Que maravilha! E por que se decidiu a deixar de fumar?
― Por causa de você ― disse ele. ― E… e de Alvin.
Ela arregalou os olhos e, quando o filme recomeçou, nem se deu conta da TV. Dick raramente falava no filho retardado. Cindy se aproximou e olhou para o cinzeiro vazio junto à mão dele. Depois, fitou-o nos olhos.
― Está mesmo tentando deixar de fumar, Dick?
― No duro.
E acrescentou mentalmente: se eu procurar a polícia, os bandidos locais virão estragar seu rosto, Cindy.
― Fico muito feliz. Mesmo que não consiga deixar, nós dois lhe agradecemos pela intenção, Dick.
― Oh, creio que conseguirei ― disse ele, pensando na expressão sombria e homicida que surgira nos olhos de Donati quando este lhe metera os pés no estômago.
Dormiu mal naquela noite, acordando repetidamente. Por volta das três horas, despertou por completo. Seu anseio por um cigarro era como um estado febril. Desceu e foi ao escritório. A sala ficava situada no centro da casa. Sem janelas. Abriu a gaveta de cima da mesa de trabalho e olhou para dentro dela, fascinado pela caixa de cigarros. Olhou em volta e umedeceu os lábios.
